- Milagre! Gritou a mulher da esquina.
Era a menina que dobrava a rua do antigo rapaz. E nesse instante seus passos pareciam marcar um compasso calmo e lento. Não trazia malas, nem bolsa qualquer, apenas a roupa do corpo.
Quando tocou nos primeiros paralelepípedos daquela rua o sol parecia ranger as madeiras das portas das casas e já secavam as poucas poças. Logo acabaram as pedras, começou a terra batida em caminho reto a casa do rapaz. Um misto de seca e lama transpassava seus pés. Aumentou o ritmo deixando escapar mais do seu perfume enquanto seu corpo contra a luz do sol denunciava sua juventude elegante e a retidão e o destino certo daqueles passos. Ao pisar na grama da calçada do rapaz, correu com os olhos as mudanças do lugar ainda familiar.
Seu rosto tornou-se mais brilhoso pelo sol e um misto de suor e lágrimas confundiam ainda mais sua face em sorrir e chorar como música. Alcançou a porta destrancada, quase entreaberta e sentiu o mesmo cheiro que lhe trazia junto a memória. Ameaçou abrir e preferiu bater.
Escutou o ranger dos passos de alguém estalando a madeira, o som peculiar de quem espreguiça o corpo em um princípio de tarde de domingo, após anos por esperar que o sol te traga na porta um passado sorriso...
Assim ajeitando o corpo dentro da camisa e os pés na sandália abriu junto a porta um sorriso que amassou as bochechas. Poderia dizer que durou minutos, os poucos segundos que brilharam os olhos juntos sem se abraçarem, mas o tempo é impreciso e certo é que no longo abraço molhado junto ao sol daquela varanda demoraram até o anoitecer. Sumiram porta a dentro e até hoje a mulher que pendurava as roupas no varal da esquina jura ser milagre.
.R
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